quinta-feira, 18 de julho de 2013


Quando era garota era fã incondicional do Michael Jackson (e ainda sou!). Quem me conheceu por esses tempos lembra-se com certeza. As paredes do meu quarto não tinham espaço livre tal era a quantidade de posters e recortes da Bravo que lá estavam colados. Na t-shirt que os meus primos me trouxeram do concerto dele em 92 cabiam 3 iguais a mim, mas vestia-a praticamente todos os dias. Ainda a guardo. O meu Pai não me autorizou a ir com eles, fiquei tão triste que acho até que ele se arrependeu. O MJ era meu amigo. Imaginava-me a passar férias no NeverLand Ranch, conversávamos sobre música e visitávamos os animais que ele lá tinha. Eramos mesmo amigos.

À medida que fui crescendo fui ganhando outros amigos, um deles é o Zé. Tornei-me amiga do Zé na faculdade. Fui à FNAC à procura de um livro para ler, sem a ideia de que para além de trazer de lá um livro iria também fazer um amigo. Depois de algum tempo a passear pelos corredores e a ler os resumos das lombadas dos livros (isto deve ter algum nome técnico que eu desconheço...) encontrei um que me chamou a atenção. Morreste-me. E como diria o Jerry Maguire you had me at hello! Morreste-me é muito mais do que alguém que amamos morrer, é essa pessoa morrer de tal maneira que a morte nos chega às entranhas. E era mesmo isso que me tinha acontecido. O meu Pai não morreu só, ele morreu-me, morreu-me até às entranhas.  Apróximamo-nos das pessoas que têm coisas em comum connosco, dizem os mestres da Sociologia e a minha vida também. E foi assim que conheci o Zé. Comecei a ler o livro no metro mas não conseguia segurar as lágrimas e achei melhor lê-lo quando chegasse a casa. E nunca mais chegava a casa. Parecia o meu filho quando o pai lhe diz: quando chegarmos a casa vamos andar de skate, o garoto vai o caminho todo: já chegámos, já? Chorei baba e ranho, mesmo, e como eu gosto de chorar. Gosto de me emocionar. Pela primeira vez alguém conseguia explicar por palavras o que eu senti, sinto e sentirei o resto da minha vida. Parecia que o Zé tinha entrado no meu cérebro, descodificado as minhas emoções e depois tinha escrito um livro sobre isso. E foi assim que conheci o Zé. O livro que comprei nesse dia já não o tenho, ofereci-o a alguém na esperança que compreendesse o que eu senti, sinto e sentirei. Comprei outro igual. Mais tarde ofereci-o a alguém a quem sabia que iria ter exactamente o mesmo impacto que teve em mim. E teve. 

Há uns meses fui com a canalhada toda ao parque de insuflaveis. A loucura devo confessar. Com o entusiasmo de ver o entusiasmo do meu garoto de 2 anos destemido a andar naqueles escorregas passo apressada por uma cara que me parece familiar. Era o Zé, o meu amigo. Nesta altura ele ainda não sabia que era meu amigo mas eu não me contive e tive que lhe ir dizer. Agarrei no Santiago por um braço, o Rui com a camara em punho, enchi-me de coragem e fui falar com o Zé. Achei que ele deveria saber que o que ele faz é muito bom e que mudou a minha vida e que ele era meu amigo. Estava tão nervosa que não lhe consegui dizer tudo o queria. Disse-lhe que estava a ler o Abraço, mas queria ter-lhe dito que chorei com a carta que ele escreveu para o filho, que me revejo na forma como ele admira as pessoas que o rodearam enquanto cresceu, que conheço Galveias sem nunca lá ter estado. Perguntou-me o meu nome e tratou-me por tu, eu era amiga dele há muitos anos mas ele só me estava a conhecer naquele instante. Acho que ele ficou contente por saber que eu era amiga dele há muito tempo, eu fiquei contente por lho dizer. Grande Zé, és meu amigo. 

quarta-feira, 12 de junho de 2013


A minha mudança para a Ericeira trouxe-me tanta coisa boa. Uma casa mais espaçosa, um terraço para beber uns copos, um parquinho mesmo à frente de casa para o meu filho descarregar energia, uma distancia a pé da praia ainda mais curta, o cheiro a maresia, a possibilidade de ver o mar enquanto janto na minha sala... mas trouxe-me também a possibilidade de fazer uma coisa que quero desde garota. Pois bem, enquanto as outras meninas sonhavam em ser princesas, bailarinas e fadas eu cá sonhava em ser carpinteira. Mas este sonho não veio do nada, não veio não senhor. Como filha mais nova e encomendada já fora de época que sou, seguia o meu Pai para todo o lado. Almoços com os seus clientes e amigos e idas ao Daiquiri. Sendo ele um workaholic a sua vida social era reduzida. Mas o que eu mais gostava era quando ele se punha na garagem a fazer e restaurar móveis. Ai o que eu gostava. Tinha a sua mesa de trabalho, daquelas de carpinteiro à séria (o meu sonho de consumo até hoje), e as suas ferramentas todas penduradas. Uma verdadeira obra de arte. Ora, eu como boa menina do Pai passava lá horas com ele a vê-lo trabalhar. Quando tinha sorte ele dava-me uma tábua que já não tinha propósito para pregar uns pregos. Ai o que eu gostava de pregar pregos naquelas tábuas. E com martelos verdadeiros, não como o do Manny Mãozinhas que o meu filho tem. Mesmo depois de crescida e já com canudo na mão (como ele tanto queria), trabalho e mãe de filho, este sonho nunca me abandonou. Nem o sonho nem a imagem do meu pai a fazer e restaurar móveis na sua mesa de carpinteiro. Quando me mudei para a Ericeira cismei que era desta. Ainda não tenho uma mesa de carpinteiro à séria mas já está na lista do Pai Natal. Fui às lojas da especialidade e vim de lá cheia de sacos e com a carteira muito mais leve. Ela foi tintas, primários, máquinas lixadeiras, lixadeiras manuais, pregos, parafusos, tudo o que tinha direito para me iniciar na arte. Comecei pelo restauro, há que sonhar alto mas há também que saber que se deve aprender a arte da carpintaria com projectos mais pequenos. E com um sofá de pallets para o terraço abri as hostilidades. Ficou bonito. O meu mestre teria ficado orgulhoso. Acho que até gostaria de beber o seu whisky de malte lá sentado.

primeiro dia de escola

Mas que difícil que é para mim dar este passo. Sempre achei que alguém que se lembra de fazer um blog tem obrigatoriamente que ter alguma coisa de interessante e de diferente a dizer, de blogs de coisas fofinhas-queridas-cocós-chichis-pseudo-intelectuais-de-esquerda-e-de-direita-super-fashion-e-notsomuch está o inferno do mundo online cheio. E é para lá que provavelmente este irá também. No entanto resolvi que era chegada a hora. Numa época do ano de datas muito pouco festivas da minha história, que coincidiram com o inicio da concretização de um sonho que tenho desde garota, resolvi ir ao meu primeiro dia de escola do mundo dos e das poetas online que há por esse mundo fora.  Afinal se há tanta gente a dizer o que bem lhe apetece por que não juntar-me ao grupo? Sempre fui uma mulher do povo,  e o povo é quem mais ordena.